quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Das muitas cartas

Nestes dias me surpreendo cabisbaixo e as pessoas me perguntam por que estou triste. Não encontro resposta e algo me percorre soprando que não é tristeza, que não haveria motivos para. Há uma ausência morando em mim. Uma ausência que com o tempo vai desarrumando a casa ou que vai tornando inválida a antiga ordem. Queria tanto que em meus dias houvesse ao menos um instante que por ser só nosso faria valer todas as más horas (que, sabes, temos de atravessar) e também tornaria melhores as horas boas. Queria tanto ligar contigo fins e começos, noites e manhãs e, assim, acalmar esta morte consecutiva. Hoje, por exemplo, ao ir beber água durante o teatro, vi tua carteira em tua classe, e isto nada tem de literária ou de qualquer outra intenção. Era tua exata carteira, tua carteira de canhoto, onde te sentas todos os dias com o amor canhestro que há em ti e que nos desvia. Fiquei imaginando que poderia me aproximar sorrateiro ou qualquer coisa assim e te enlaçar e te beijar e. Ontem, em todos os momentos em que o sono me venceu (minutos de uma aula, cenas de um filme), sonhei, o que é incomum quando durmo, e lá estavas, a mão estendida. Nestes dias tenho lido, lido, lido, para diante da Beleza poder chorar e não pensar que meu choro é em vão. E logo eu, que tento me mostrar tão forte quando nossos olhares, por encanto, se cruzam nos intervalos e nos descruzamos com uma espécie de afoiteza. Logo eu, que silencio.

Meu silêncio é uma mentira.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A hora irrepensável

As coisas estão de prova. Os objetos não me deixam mentir. As peças de xadrez me olham de sua desordem. Não sei qual time ganha. O quarto está uma zona. Há livros e roupas esquecidos em lugares, agora assimilo, estratégicos. De lá me vigiam. Não me deixam fugir de meu estado caótico para idílios etéreos. O teto em branco. A luz. Feito chama que se alastra pelo papel. Desapropriando as moradas originais das palavras. Pairam feito gritos, estas. Invoquei-as, na esperança de encontrar sentido ou mesmo entender o que virá depois. Gritei, mas não havia voz. Meu desespero falha. Não consigo sequer dormir. Os gritos me ficam a correr no sangue. Quedas. Sete. (Que bonita a simbologia das coisas!) Querem sair, já birrentos, para um rio maior que se chama Tempo. Onde as coisas todas, os objetos, os gritos, as palavras — toda a verdade que havia em mim — não passa de limbo.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Sonata para acordar

Eu escreveria isto ontem se não tivesse sido escurecido novamente pela espécie de sono que me acompanha há algum tempo. É um sono sem lei mas também sem dor, sem cansaço mas também sem repouso. É um ciclo, acho, adivinho. Começa pela manhã, quando acordo invariavelmente com os maxilares retesados, a testa densa e braço ou perna dormente. É como se a manhã me soterrasse. Sem explosões, tremores, estrondos, deslizamentos, sem falta de ar, sem morte aparente. Estou lá, apenas, sob um véu misto de mar e céu, sol e nada. Então me levanto, meus músculos de fastio e tétano se habituam aos movimentos simples que descrevo pela casa. Ando triste. Ando pela casa. Chafurdado num chão mas quase desencarnado. Nefelibata não é a palavra. Não me ligo a crenças, símbolos, rituais, datas, sortilégios, cartas, intuições, aniversários, sinais, astros, cores, nomes. Pelo menos, quanto à metade deles, não com a intensidade necessária. Quer dizer, é aconchegante pensar: "Hoje é meu aniversário, vai ser um dia especial!", ou "Olha, meu nome significa isso e tal...". Mas faz quase um ano que foi fevereiro, que foi carnaval, e faz muito tempo que me chamo pelo meu nome. Melancolia também não é a palavra. Os melancólicos têm uma certa "volúpia de aborrecimento", e não o digo simplesmente porque sempre convém citar Machado, mas sim porque conheço casos, gentes, olhos que me confessaram como é estar assim. E a confissão é o dom de desaguar um pouco no outro. Mesmo contra a vontade, de uma ou de ambas as partes. Assim, passo as horas como se tivesse sido regado em meu silêncio. Confesso-me aos poucos a essa má companhia que sou quando sozinho. Não por falta de opção, mas na tentativa (adjetivável) de ir me convencendo novamente a mim. De que sou inocente. Ah. Adjetivos: imodesta, estranha, chata, louca. Qualquer destes se adequaria à minha tentativa. A minha tentativa que tem me acompanhado há algum tempo, e da qual começo a me tornar conteúdo. Começo a soar justamente a: uma tentiva. Algo que dará certo, em que todos acreditam, mas que, caso contrário, é facilmente substituído. Por uma tentativa que chegue aonde todos querem chegar. Aonde?

Aonde eu me quero chegar?

Enquanto não me chego, não me basto, eu espero - com a paciência dos novos amigos e dos velhos inimigos - que a noite chegue, e com ela o sono que ainda não desvendo. Porque talvez eu já tenha me desvendado e não saiba para onde olhar. Que luzes seguir.